Artigo Original - Ano 2016 - Volume 33 - Edição 101

Relação entre recursos familiares e desempenho escolar de alunos do 5º ano do Ensino Fundamental de escola pública

RESUMO

INTRODUÇÃO: É comum, no meio escolar, ouvir professores salientando que a família é a grande culpada pelas dificuldades dos filhos na escola; que bons alunos têm pais presentes e outros estímulos do ambiente que favorecem o bom desempenho acadêmico. Por esse motivo, a presente pesquisa objetivou avaliar os recursos do ambiente familiar e correlacioná-lo ao desempenho escolar de alunos do 5º ano do Ensino Fundamental de escola pública brasileira.
MÉTODO: Foram selecionados 23 alunos participantes do 5º ano, com idade média de 10,9 anos. Foram aplicados os instrumentos Teste de Desempenho Escolar (TDE) nos alunos e o Inventário de recursos do ambiente familiar (RAF), em forma de entrevista, nos pais dos alunos.
RESULTADOS: Nesta amostra, houve correlação positiva entre desempenho escolar e alguns itens do ambiente familiar, como posse de livros, revistas e brinquedos pedagógicos, passeios em família, atividades extraescoltares programadas e acompanhamento dos afazeres escolares.
CONCLUSÃO: Neste estudo, foi possível observar que crianças que recebem estímulos em casa apresentam maiores chances de obterem desempenho escolar satisfatório. Sugere-se que seja realizada uma futura pesquisa para que possa ser relacionado o desempenho escolar com os recursos do ambiente familiar nas esferas pública e particular, a fim de que se possa ter dados relevantes em relação à educação e a presença de recursos do ambiente familiar.

Palavras-chave: Família. Leitura. Escolaridade. Fatores socioeconômicos.

ABSTRACT

INTRODUCTION: It is common on scholar environment to hear teachers highlighting that family is grandly guilty by children’s difficulties at school; that good students have present parents and other environmental stimulations, which favor a good academic performance. By this reason, the present research objectified to evaluate the familiar environmental resources and correlate it to the scholar performance of 5th grade students from Brazilian elementary public school.
METHODS: A selection of 23 students participating from the 5th grade with average age of 10.9 years old. The instruments were the Scholar Performance Test (TDE) on the students, and an interview on the parents of such students using the Inventory of Familiar Environment Resources (RAF).
RESULTS: in this sample, there was a positive correlation between scholar performance and some items of the familiar environment, such as ownership of books, magazines and pedagogic toys, going out on family, scheduled extra scholar activities, and following scholar homework up.
CONCLUSION: Therefore, in this study, it was possible to observe that children who receive home stimulations present higher chances to achieve satisfactory scholar performance. As suggestion, future research relating scholar performance with familiar resources at public and private spheres, in order to obtain relevant data towards education and the availability of familiar environmental resources.

Keywords: Family. Reading. Educational status. Socioeconomic factors.


INTRODUÇÃO

No ambiente escolar, de maneira geral, é unânime a opinião dos professores a respeito da relação entre ambiente familiar e desempenho escolar: alunos com mau desempenho vivem em um ambiente desestruturado, com pouco estímulo e recursos e nenhuma oportunidade de lazer e cultura, enquanto que alunos com desempenho de mediano a bom convivem com pais e familiares preocupados com a sua formação, que se dedicam à vida escolar do filho e lhes proporcionam recursos estimulantes. De acordo com Marturano1, após os anos 1960, houve grande número de pesquisadores com o objetivo de relacionar família e desempenho escolar, mas faltava instrumento para esse tipo de avaliação. Por esse motivo, o autor decidiu criar e descrever o inventário Recurso do Ambiente Familiar (RAF)1, que objetiva fazer uma associação entre perfil familiar e desempenho escolar. É esse inventário que será utilizado na presente pesquisa, visando ao entendimento mais profundo sobre a relação família e desempenho escolar e buscando repensar a importância na área educacional da participação dos pais na vida escolar do filho, porém, com a consciência de que a família não é a única responsável pelo fracasso das crianças na escola, pois há inúmeras variáveis e fatores que se cruzam e se inter-relacionam com o desempenho escolar2.

Para isso, é necessária uma breve revisão sobre o conceito de família e da infância ao longo da humanidade para que se possa refletir a respeito da família atual e sua relação com o desempenho escolar.

Ao longo dos anos, o conceito "família" tem se modificado muito e não há como negar que esse fator interfere e afeta na educação escolar das crianças de maneira geral. No passado, as famílias eram compostas por pais, filhos e parentes e todos ou quase todos moravam na mesma residência. Porém, isso mudou muito com o passar dos anos e hoje temos famílias totalmente diferentes, porém todas são responsáveis pela socialização das crianças e por satisfazerem suas necessidades básicas3.

Toda essa mudança em relação a família não pode ser vista como um fator negativo, mas sim como consequência da transformação da humanidade.

Genofre4 afirmou que a Constituição Federal de 1988 representou um marco na evolução do conceito de família, com a tendência a se tornar um grupo cada vez menos organizado e hierarquizado e que cada vez mais se funda na afeição mútua. É o lugar em potencial para formar pessoas saudáveis, felizes e equilibradas ou geradora de desequilíbrio, inseguranças e indisciplina5. Ou seja, pode gerar tanto crianças saudáveis e equilibradas, quanto inseguras e indisciplinadas, dependendo dos valores morais que considera e os recursos que dispõe para estimular e educar seus filhos.

Segundo Marchesi & Gil6, a educação não é uma tarefa que a escola deva e possa realizar sozinha, sem a cooperação da família. Essas duas instituições devem buscar os mesmos objetivos, para que juntas possam superar dificuldades e conflitos. A família constrói a identidade da criança, dando-lhe dimensões de reconhecimento, confirmação e afetividade7.

De acordo com esses conceitos, a família é a base para o desenvolvimento físico, psíquico e emocional das crianças e é na família que as crianças vão construindo sua identidade. Portanto, o adulto é o modelo, o alicerce e a base para que a criança cresça saudável e se desenvolva de maneira integral.

A criança na Antiguidade era tratada como algo descartável pela família ou abandonadas. Há vários casos de personagens célebres que foram abandonados por suas famílias, desde mitos gregos até personagens bíblicos. Os gregos e romanos, por exemplo, davam ao pai o direito de vida e morte sobre o filho; os romanos abandonavam ou matavam seus filhos indesejados. Ainda tem a história de Moisés, personagem bíblico, que foi abandonado num cesto. Na Idade Média, a mortalidade infantil era altíssima e, no período do Renascimento, chegava a 80%8.

Diante dessas e outras histórias, Martins Filho8 discorda da ideia de que a criança sempre foi protegida, pois desde os tempos mais remotos, percebe-se que os adultos não gostam de serem incomodados por crianças, os que sobreviviam eram os que tinham sorte. E agora, no século XXI, o que se vê são crianças sendo espancadas física e mentalmente.

De acordo com Caetano9, frequentemente se vê nos noticiários conflitos entre pais e filhos: filhos que matam pais e pais que matam filhos. Isso se deve a uma ausência de valores morais que levam à crise familiar, porém os pais são responsáveis por formar o caráter e a personalidade moral da criança. Na verdade, os pais devem refletir a respeito dos seus papéis na formação das crianças, lembrando que não há receita para educar filhos.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)10 protege integralmente as crianças e adolescentes brasileiros, sem distinção de raça, cor ou classe social, protegendo-os da violência doméstica, garantindo-lhes o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária. Proporciona, assim, um desenvolvimento físico, mental, moral e social e preparando-os para a vida. E, quando, por algum motivo, a família não apresenta condições favoráveis ao desenvolvimento dessa criança ou adolescente, estabelece a família substituta para que o desenvolvimento se mantenha de forma integral.

Ferreira & Barrera11 realizaram uma pesquisa de campo com crianças de Educação Infantil analisando as relações entre ambiente familiar e desempenho escolar, utilizando o RAF - Inventário de Recursos Familiares. Os resultados indicaram que há associação entre desempenho e recursos do ambiente familiar, principalmente na presença de objetos culturais, porém a constituição familiar e o nível socioeconômico não se associaram ao desempenho. Diante desses resultados, as autoras enfatizam que a escola precisa repensar e discutir a necessidade de mitos relativos às "causas familiares" do fracasso escolar, já que a escola pode propiciar esses objetos culturais. E que o comprometimento do desempenho de um aluno não pode ser atribuído à organização familiar da criança nem ao seu nível socioeconômico, como acontece com frequência por parte dos professores em geral.

Em contrapartida, uma revisão bibliográfica, em várias bases de dados, realizada por D’Abreu e Marturano12, constatou uma grande evidência que o baixo desempenho escolar recebe influências de antecedentes, como condições adversas na família e nível socioeconômico baixo e que podem estar associados a transtornos psiquiátricos e/ou psicológicos e comportamento antissocial.

Também partindo de revisão de literatura, Oliveira & Marinho-Araújo13 apontaram que, conforme os filhos avançam na escolaridade, os pais participam menos das atividades escolares e que a escola peca em orientar os pais sobre como educar os filhos.

De acordo com Souza14, após realização de revisão bibliográfica, a relação família/escola é muito importante e benéfica no processo educativo da criança e ambas são referenciais para um bom desempenho escolar, portanto quanto melhor for o relacionamento entre elas, melhor será o desempenho do aluno. Porém, não existe receita mágica para essa relação, pois cada família e cada escola vive em realidades diferentes e é necessário que uma conheça a realidade da outra e que juntas construam uma efetiva relação de diálogo e busquem parcerias.

Dessa maneira, este trabalho objetivou avaliar os recursos familiares de alunos do 5º ano do Ensino Fundamental e verificar se há relação entre desempenho escolar e perfil de recursos familiares dos alunos.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa de campo não-experimental, transversal e quantitativa. Foi aprovada pelo Comitê de Ética da Unicamp, sob o número CAAE: 38338114.2.0000.5404.

Participaram da pesquisa 23 alunos do 5º do Ensino Fundamental de escola pública, localizada no município de Espírito Santo do Pinhal, São Paulo.

Os critérios de inclusão foram: estar cursando o 5º ano do Ensino Fundamental da referida escola; crianças autorizadas pelos pais ou responsáveis a participarem da pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; crianças com acuidade auditiva e visual adequadas, que foi questionado aos pais no primeiro encontro; crianças que não faziam uso de medicamentos neuropsiquiátricos ou diagnosticadas com quaisquer transtornos de aprendizagem e/ou desenvolvimento, que foi questionado aos pais no primeiro encontro.

O critério de exclusão foi: pais que não compreenderem e/ou tiverem dificuldades para responder o Recurso do Ambiente Familiar.

Foram utilizados dois instrumentos:

Teste de Desempenho Escolar (TDE): é um instrumento psicométrico que busca oferecer de forma objetiva avaliação das capacidades fundamentais para o desempenho escolar, mais especificamente da escrita, leitura e aritmética. É composto de três subtestes:

  • Escrita: escrita do nome próprio e de palavras isoladas apresentadas, sob forma de ditado - classificação: superior, igual ou maior que 32 pontos; médio de 27 a 31 pontos; inferior, menor ou inferior que 26;
  • Leitura: reconhecimento de palavras isoladas do contexto - classificação: superior, maior ou igual a 69 pontos; médio, de 66 a 68 pontos; inferior, menor ou igual a 65;
  • Aritmética: solução oral de problemas e cálculo de operações aritméticas por escrito - classificação: superior, maior ou igual a 24 pontos; médio, de 19 a 23 pontos; inferior, menor ou igual a 18 pontos.
  • Cada subteste apresenta uma escala de itens em ordem crescente de dificuldade. É apresentado sob forma de um caderno, é sempre individual, sua duração é de 20 a 30 minutos. Foi criado para avaliação psicopedagógica, a fim de avaliar as diferentes áreas de aprendizagens. Pode ser empregado também na avaliação do desempenho escolar de uma escola ou de grupo. Através dos resultados, pode-se avaliar quais áreas de aprendizagem apresentam eventuais dificuldades pedagógicas ou didáticas.

    Inventário de Recursos do Ambiente Familiar (RAF): criado por Marturano1, em 2006, com base em crianças com queixa escolar. É um questionário composto de dez questões simples e objetivas, que os pais ou responsável pela criança devem responder em forma de entrevista. Essas questões abordam: 1. Atividade realizada quando a criança não está na escola; 2. Passeios realizados; 3. Atividades programadas extraescolares; 4. Atividades que os pais desenvolvem com as crianças em casa; 5. Brinquedos; 6. Jornais e revistas; 7. Livros; 8. Acompanhamentos dos afazeres escolares; 9. Horários; 10. Reunião familiar. Cada questão é calculada dividindo a pontuação bruta da questão pela pontuação máxima, multiplicando por 10. Como se trata de uma entrevista estruturada, é de fácil aplicação e pode ser usado tanto em contexto de clínica quanto educacional, visando a um posterior auxílio aos pais de crianças com queixa escolar, melhorando as relações familiares e qualidade de vida das crianças. Avalia recursos do ambiente familiar que podem contribuir para o desempenho acadêmico nos anos do Ensino Fundamental.

     

    RESULTADOS

    Participaram do estudo 23 sujeitos, com idade entre 10 e 12 anos (média de 10,9 anos, desvio padrão de 0,61), demonstrando que não houve grande diferença entre as idades, sendo a idade mínima de 10,1 anos e a máxima de 12,8 anos; 14 (60,9%) eram do gênero masculino e 9 (39,1%) do sexo feminino.

    Quanto à analise descritiva do instrumento RAF, é possível perceber que houve maior diferença entre os itens 2, 3 e 6 do RAF em relação aos outros itens, sendo estes os itens que menos pontuaram no teste. Isso significa que há poucas atividades programadas fora da escola para os alunos, assim como poucos passeios e pouca presença de jornais e revistas em casa. Em compensação, os itens que mais pontuaram foram o item 9 e o 10, relacionados à presença de horário para realizar atividades e reunir a família (Tabela 1).

     

     

    Quanto à análise dos resultados referente ao desempenho escolar (instrumento TDE), observa-se que, apesar de as crianças estarem na mesma faixa etária, o desvio padrão nos resultados de leitura e escrita é considerável, diferença significativa entre os resultados mínimo e máximo (Tabela 1).

    Na análise dos resultados referente à escrita no TDE, observou-se que 43,5% da turma obtiveram classificação inferior na escrita, 34,8% com resultado na média para a idade e apenas 21,7% com classificação superior. Assim como na escrita, a leitura também obteve 43,5% na classificação inferior, 43,5% na média e 13% na classificação superior.

    Diferentemente da leitura e da escrita, a turma obteve 73,9% nas classificações média e superior no subteste Aritmética do TDE (34,8% na classificação superior e 39,1% na média), com menor porcentagem (26,1%) na classificação inferior.

    Quanto ao resultado final no TDE, observou-se que 43,5% da turma pesquisada estavam dentro da média no desempenho escolar, 34,8% na classificação inferior e 21,7% superior.

    Correlacionando os dados obtidos no TDE com o perfil identificado pelo RAF verifica-se que 8 sujeitos tiraram classificação inferior no TDE (abaixo da média no desempenho do TDE) e relacionando com os seus resultados no inventário RAF, pode-se verificar que a menor média (2,08) foi no item 3, que se refere às atividades programadas realizadas fora da escola, e no item 2, que se refere a passeios realizados na família. No item 9, que estabelece rotina, ou seja, horários para realizar as atividades diárias, a amostra pontuou a melhor média (8,12) (Tabela 2).

     

     

    Quanto à análise dos sujeitos com classificação na média no TDE, observa-se que os 10 sujeitos que estão na média no desempenho escolar também tiveram diferença na pontuação dos itens 3 e 9 do RAF (Tabela 3).

     

     

    O mesmo aconteceu com os 5 sujeitos que obtiveram classificação superior no TDE, comprovando que o estabelecimento de rotinas por si só não influencia no desempenho escolar, não importando o desempenho escolar (Tabela 4).

     

     

    Na análise da correlação entre os itens do RAF com a classificação total de cada item do TDE, pode-se verificar que os itens 7 e 8 do RAF são os únicos que apresentaram correlação nesta pesquisa. O item 7, que envolve a posse de livros em casa, teve uma correlação positiva com todos os itens do TDE, ou seja, quanto mais se tem livros em casa, melhor o resultado na avaliação da leitura, da escrita, da aritmética e no resultado geral no TDE, havendo uma correlação moderada e significativa.

    No item 8 (acompanhamento dos afazeres escolares), também verifica-se uma correlação significativa com a leitura e muito significativa (p<0,01) com a escrita, demonstrando que, quanto maior é o acompanhamento dos pais nas tarefas da escola, melhor será o desempenho da criança na escrita e na leitura, resultando também numa correlação significativa com o resultado geral do TDE (Tabela 5).

     

     

    Quando comparado os três grupos do TDE (inferior, média e superior), não foram encontradas diferenças significativas entre as pontuações do RAF. Porém, na comparação entre os grupos que obtiveram a classificação inferior e média no TDE, percebe-se que houve diferença entre os grupos somente no item 5 do RAF. Essa comparação revela que ter brinquedos pedagógicos nas diversas faixas etárias ajuda no desempenho escolar das crianças (Tabela 6).

     

     

     

    Na comparação entre os grupos que obtiveram a classificação inferior e superior, houve diferença entre os grupos nos itens 7 e 8 RAF, comprovando mais uma vez que ter livros em casa e acompanhar os deveres da escola são essenciais e colaboram no desempenho escolar (Tabela 6).

    Na comparação entre os grupos que obtiveram a classificação média e superior, não houve diferença entre os grupos em nenhum item, ficando claro que apresentar um ambiente familiar favorável ao desenvolvimento pedagógico e social colabora com um desempenho satisfatório da criança na escola (Tabela 6).

     

    DISCUSSÃO

    Os resultados obtidos evidenciam que a pesquisa atingiu os objetivos propostos inicialmente de avaliar os recursos familiares e verificar a relação desses recursos com o desempenho escolar dos alunos do 5º ano do ensino fundamental de uma escola pública do interior do estado de São Paulo.

    Observou-se grande diferença entre a pontuação mínima e a máxima, além de uma média baixa, nos itens 2, 3 e 5 do RAF referentes a passeios, atividades programadas extraescolares e posse de brinquedos pedagógicos e estimulantes. Bomtempo15 afirma que o brincar, além de uma atividade cultural, é social e deve estar presente em todo o desenvolvimento da criança, favorecendo as relações familiares. Observou-se, também, uma média alta de pontuação nos itens 9 e 10 do RAF, referentes a horários para realizar diversas atividades e família reunida, ficando evidente que, nessa amostra, poucas famílias conseguem organizar passeios, atividades de lazer e oferecer brinquedos pedagógicos. Isso pode estar relacionado à cultura da família ou até mesmo à dificuldade financeira dessas famílias, que ficam impedidas de terem, dentro de seu orçamento familiar, chance de fazer passeios ou atividades extraescolares. Segundo resultados do IBGE-32 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 201316, a baixa escolarização e a maior taxa de analfabetismo estão entre famílias com baixa renda e com padrão de vida precário que, muitas vezes, nem têm acesso a serviços básicos de infraestrutura, provando que a renda per capita dessas famílias não pode realmente ser utilizada para fins de lazer, como passeios e nem na compra de brinquedos, já que o sustento da família é o principal objetivo.

    Em relação aos resultados obtidos no TDE, os sujeitos encontraram maior dificuldade em relação às palavras desconhecidas e fora do cotidiano, contribuindo para um grande desvio padrão em leitura e escrita, sendo que 43,5% da amostra tiveram resultado inferior na avaliação de leitura e escrita para a idade. Analisando o Censo Educacional 2001-2002, o fracasso escolar atingiu 27,4% na antiga 5ª série (atual 6º ano), comprovando que o fracasso escolar vem aumentando a cada ano e, no último quarto de século, isso tem se agravado no Brasil, de acordo com Capovilla et al.17. Um dos grandes fatores está no fato de as crianças terem sido privadas de instruções fônicas e metafonológicas sistemáticas (capacidade de relacionar grafema-fonema), pois no sistema alfabético-silábico, antiga cartilha, passou-se para o ideovisual em uma interpretação mal feita da teoria construtivista, ainda segundo Capovilla et al.17. Esse desvio padrão pode ser justificado também pelas desigualdades sociais, pois, de acordo com dados do IBGE de 201316, apesar de que nos últimos 10 anos houve avanços educacionais significativos, ainda é necessário reduzir a desigualdade entre educação e grupos sociais e para isso deve haver mais eficiência do sistema de ensino.

    Além de maior eficácia do sistema de ensino, na presente pesquisa ficou comprovado que é importante não somente o acompanhamento dos pais nos afazeres escolares, o estabelecimento de rotinas, o estabelecimento de horários para as diversas atividades do dia-a-dia e a reunião familiar, como também há a necessidade de os pais levarem seus filhos a passeios e darem a eles alguma atividade de lazer, além do oferecimento de brinquedos e atividades programadas fora da escola.

    Reis & Ramos18 defendem que as diferenças educacionais nas famílias estão intimamente ligadas à desigualdade de rendimentos no trabalho, ou seja, quanto mais anos de escolaridade dos membros da família, maior é a média dos rendimentos. O maior nível de escolaridade propicia uma renda per capita melhor, que contribui para que as famílias possam investir em atividades de lazer, passeios e atividades extraescolares. Há, dessa forma, um círculo vicioso em que o grupo social favorecido depende do nível de escolaridade da família, que terá ou não melhores condições de participar da vida escolar de seus filhos, fator importante para um bom desempenho escolar dos mesmos.

    Nesta amostra, comprovou-se que a posse de livros e o acompanhamento dos afazeres escolares por parte dos pais estão relacionados a uma melhora no desempenho da escrita, da leitura e da aritmética; que possuir brinquedos pedagógicos que estimulem a criança, auxilia o sucesso escolar; que o acompanhamento dos pais nas tarefas escolares, estimula o desenvolvimento da criança. Isso confirma a pesquisa de Marturano19, que afirmou que o nível de escrita está positivamente associado à disponibilidade de livros e brinquedos pedagógicos estimuladores do desenvolvimento e também ao compartilhamento das atividades escolares com os pais. E não adianta somente estabelecer rotina para as crianças realizarem as atividades sem acompanhá-las, pois precisam de supervisão dos pais e interação com os mesmos, conforme essa amostra pesquisada, na qual o acompanhamento dos pais nas tarefas escolares esteve relacionado positivamente com melhor desempenho no TDE.

    A presença e disponibilidade de brinquedos, livros, jornais e revistas em casa e a quantidade de atividades compartilhadas com os pais são indicadores de bom desempenho escolar de alunos. A própria escola deve assumir a responsabilidade de propiciar a seus alunos brinquedos e objetos culturais independente dos recursos da família, segundo Ferreira & Barrera11. A criança leva para a escola experiências provenientes do seu espaço familiar e a escola deve implementar estratégias para cada aluno, concretizando atividades conjuntas e se comunicando de forma clara e objetiva com os pais, é o que afirmam Polonia & Dessen20.

    Silva & Muller21 reforçam a importância da participação da família na escola para o progresso educacional dos estudantes. Não apenas com o fim de receber o boletim com as notas dos filhos, mas sim uma participação mais efetiva diante até das propostas pedagógicas da escola, nos conselhos de classe, ajudando a solucionar alguns problemas que venham a interferir na educação de seus filhos.

    O envolvimento dos pais na vida acadêmica dos filhos é um aspecto muito importante, que pode promover condições favoráveis à aprendizagem, de acordo com Soares et al.22. A responsabilidade dos pais não se limita apenas à geração biológica, mas também na participação na vida dos filhos, segundo Netto23.

    Em pesquisa realizada com professores sobre as dificuldades de aprendizagem e suas possíveis causas, Stefanini & Cruz24 afirmaram que os problemas familiares podem sim ter um papel relevante no insucesso escolar.

    Dentre outros fatores, a família é uma variável importante no sucesso acadêmico das crianças e é uma das causas, não isoladamente, do fracasso escolar, segundo Menezes-Filho25. A parceria escola e família é essencial à aprendizagem, promovendo o sucesso escolar. Os pais auxiliam a escola de acordo com a maneira com que eles foram educados, porém famílias com baixo grau de escolaridade se sentem perdidas diante das tarefas. Os pais relatam, ainda, que sentem a necessidade de maior orientação por parte da escola de como devem auxiliarem seus filhos, segundo pesquisa de Chechia & Andrade26.

    Concluindo, nessa amostra houve correlação positiva entre desempenho escolar e alguns itens do perfil do ambiente familiar: passeios, atividades programadas extraescolares, posse de livros, revistas e brinquedos e acompanhamento de deveres escolares. Esses dados indicam que, quando há estímulo e motivação no ambiente familiar, há também melhores chances de as crianças terem desempenho escolar satisfatório. Sugere-se para pesquisas futuras que essa correlação seja analisada também entre as esferas pública e particular, a fim de que se possa obter dados relevantes e significativos quanto à relação educação e ambiente familiar na realidade brasileira.

     

    REFERÊNCIAS

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    1. Pedagoga, especialista em Psicopedagogia e especialista em Neuropsicologia aplicada à Neurologia Infantil - Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil
    2. Neuropsicóloga, Livre Docente em Neurologia Infantil, Professora Associado III da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil
    3. Psicólogo, mestre em Ciências Médicas pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil

     

    Correspondência

    Renata Ribeiro
    Rua Campos Sales, 56 - Vila Palmeiras
    Espírito Santo do Pinhal, SP, Brasil - CEP 13990-000
    E-mail: ataner_ri@yahoo.com.br

    Artigo recebido: 02/04/2016
    Aceito: 21/06/2016


    Trabalho realizado na Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Ciências Médicas, Campinas, SP, Brasil.